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Quem se preocupa com a sua privacidade?

Big Techs tentam nos vender privacidade como propósito, mas o que vemos é muito mais uma defesa de território.

Nas últimas semanas, tivemos anúncios de empresas como Google e Apple que tomaram medidas, segundo elas, para proteger a privacidade dos usuários. Apple passou a restringir a captura de dados dos aplicativos de terceiros na nova versão do seu sistema operacional. Já o Google declarou que não vai mais servir anúncios baseados nos dados de navegação individuais dos usuários. Esse anúncio está em sintonia com o prazo para o fim do uso de cookies no navegador Chrome em 2022. 

O anúncio da Apple deixou o Facebook muito irritado. Mark Zuckerberg e Tim Cook trocaram acusações através da imprensa. Segundo o Facebook, essa restrição de uso de dados afeta diretamente seu negócio de publicidade, deixando os anunciantes às cegas na hora de direcionar seus conteúdos e anúncios para os usuários de iPhone. 

Eles dizem que querem proteger nossos dados. Minha grande dúvida é a seguinte: proteger de quem?

No Brasil e no mundo todo, dados pessoais vazam o tempo inteiro sem grandes repercussões penais para os responsáveis. Recentemente mais de 200 milhões de usuários tiveram seus dados vazados no Brasil. Até agora ninguém foi responsabilizado. As próprias Big Techs vivem levando multas irrisórias na Europa por conta de vazamentos de dados muito mais sensíveis do que rastros de navegação anônimos. A sensação que fica é que os melhores engenheiros do mundo ainda são incapazes de proteger seus usuários do vazamento de dados pessoais.

Big Techs dependem dos nossos dados para sobreviver. 

A partir do momento em que a Apple deixa outras empresas acessarem dados dos usuários, ela perde a oportunidade de desenvolver produtos digitais exclusivos. A empresa que tem a maior parte de suas receitas oriundas da produção de telefones precisa proteger estes dados dos concorrentes para não se tornar a próxima Nokia. 

O mesmo acontece com o Google que tem uma boa parte da sua receita de publicidade baseada em sites de terceiros. Funciona assim: o Google entrega a melhor tecnologia de mídia programática do mundo para os portais de conteúdo serem acessados pelos maiores anunciantes. Acontece que os portais também podem utilizar outras tecnologias de rastreamento de dados e de venda de anúncios programáticos. O ecossistema de mídia programática é baseado em leilões em tempo real, tem o cookie como identificador de navegação mais popular e é um mercado com diversas empresas concorrentes do Google. Tudo isso acontece na maior parte da vezes através do browser Google Chrome que tem 80% do mercado global. Ou seja, ao eliminar o cookie do seu browser o Google declara seu apreço pela privacidade do usuário, mas, coincidentemente, limita a ação dos concorrentes. 

Já escrevi sobre a realidade incômoda da economia digital. Esse papo de privacidade é um grande pastel de vento que tentam nos vender como “propósito” das empresas. Está claro que, no fundo, essa restrição ao acesso dos dados tem como objetivo proteger o negócio muito mais do que o usuário. 

Não é proibido combater a concorrência.

Aquilo que anteriormente conhecíamos como internet está se tornando grandes feudos digitais. Google, Facebook, Amazon, Apple, Microsoft, Alibaba, Baidu, Tencent, Bytedance estão cercando seu principal ativo, os dados dos usuários, para não terem seu território invadido pelo concorrente. Da mesma forma, no feudalismo que aprendemos nas aulas de história, os senhores feudais digitais possuem simpatia com alguns visinhos e antipatia com outros. O intercâmbio de dados pode acontecer quando ambos saem ganhando. Principalmente, quando ambos conseguem tirar forças de um terceiro concorrente. É o caso de Apple e Google que colaboram entre si, mas ambos parecem ter sérias restrições com o Facebook. Amazon e Microsoft são dois feudos digitais baseados em Seatle que costumam colaborar entre si. Quando um fica forte demais em algum braço de negócio, logo a colaboração se torna menos conveniente.

Na China, estes feudos digitais são chamados de “super apps”. Basicamente, tudo que você precisa da internet está dentro do app: mobilidade, shopping, conta bancária, relacionamento, games, etc. Não é à toa que empresas latino-americanas e brasileiras (Rappi e Magalu) já estão usando esse termo para definir seus aplicativos.

Essa visão de cercamento de dados vale para as grandes corporações, mas também para qualquer um que queira vencer na economia digital. O Santo Graal dessa nova era dos negócios é a personalização absoluta do consumo. Isso só é possível quando você consegue capturar e armazenar dados únicos dos seus usuários. O passo seguinte é conectar essa informação com uma capacidade cada vez maior de entregar uma experiência e também produtos altamente personalizados.

É muito difícil ser independente em um mundo dominado por senhores feudais tão poderosos. Na maioria das vezes, conectamos nossos negócios nestas empresas. De alguma forma, dependemos do sucesso da Big Tech que nos sustenta. Sendo assim, todo negócio baseado nestas empresas depende do que cada uma faz para proteger seu próprio negócio.

Como ficamos nós, os usuários, no meio disso tudo? Como eu já disse um outro texto: Precisamos cobrar pelos nossos dados. A nossa informação é o que alimenta as caldeiras da nova economia. 

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