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O que faz você levantar da cama na segunda-feira?

Motivação é um tema que sempre foi muito estudado e debatido no mundo corporativo. Sabemos que a simples obrigação de trabalhar não é suficiente para aproveitar o máximo potencial das pessoas para produzirem. Temos uma legião de coaches e especialistas que nasceram e cresceram, alimentados pelos empreendedores ao redor do mundo, para buscar essa resposta. Motivação é portanto uma questão universal.

Para deixar o cenário um pouco mais fértil para o surgimento de soluções milagrosas, cada vez mais estamos envolvidos em um mundo de distrações que nos convidam a procrastinar. Então surgiram nos especialistas em resolver o problema da procrastinação. Como se essa fosse a causa de todos os problemas para falta de motivação e produtividade. Hoje em dia é muito fácil fazer de conta que estamos trabalhando com tantas distrações à disposição. Podemos passar a semana toda sempre apressados, muito ocupados em reuniões improdutivas. Ou apagando incêndio atrás de incêndio, que nós mesmos provocamos de forma inconsciente. No fundo, estamos em busca de motivos para justificar o nosso cargo e salário. 

O meu pai (e quase todas as pessoas da geração dele) diriam que a motivação para levantar da cama era botar a comida na mesa e pagar o meu estudo. Então, alguém pode sacar a famosa pirâmide de Maslow do bolso para tentar me ajudar a entender e dar uma resposta rápida sobre a hierarquia da motivação. Porém eu descobri essa semana que Maslow nunca falou em pirâmide. Ouça esse podcast e vocês vão se surpreender tanto quanto eu. Nossa motivação em relação ao trabalho é bem mais complexa. 

Voltando para os dias atuais, temos o senso comum que a geração atual não quer nada com nada. Quem nunca ouviu alguém mais velho dizer que os estagiários de hoje acham que serão gerentes amanhã? (acho que até eu já disse isso, afinal, o senso comum tem esse nome porque ele é comum à maioria). A sensação que temos é que muitos estão saudosos dos velhos tempos da motivação pela sobrevivência. O tempo do “Tem que trabalhar porque tem que botar comida na mesa!”. O problema é que ficou muito fácil para a classe média botar comida na mesa. Se você sabe pedalar, você vira entregador, trabalha muito e bota comida na mesa (dos outros e na sua também). Se você sabe dirigir, basta você alugar um carro e entrar para o maravilhoso mundo dos motoristas do transporte por aplicativo. Ou como diria a publicidade de algumas destas empresas “você conquista sua autonomia e independência”. 

O saudosismo também está nas velhas estruturas pelo modelo tradicional de gestão. Esse é um paradigma que precisa ser quebrado. Não podemos cair na dicotomia simplista geracional, dizendo que essa geração não quer nada com nada. Existem exemplos de empresas que fazem as pessoas acordarem de segunda a sexta extremamente motivadas e conseguem extrair delas todo seu potencial. 

Qual é o segredo então? Voltamos ao podcast que indiquei: o segredo dessas empresas é colocar a pessoa numa posição onde ela é capaz de produzir criativamente. Isso não significa ter a obrigação de ser criativo todos os dias. O mercado publicitário está cheio de pessoas que são obrigadas a serem criativas de domingo a domingo e estão extremamente desmotivadas. Eu já experimentei na pele, no início da minha carreira, e posso garantir que a obrigação de ser criativo é tão ruim quanto qualquer outra obrigação.

A criatividade que precisamos buscar é a capacidade de resolver problemas de forma autoral, com a maior autonomia possível. Logo, autonomia nos remete ao conceito de liberdade. O profissional de hoje quer ter liberdade para decidir como resolver os desafios e problemas do dia a dia. 

Quando buscamos referenciais sobre o significado de liberdade, encontramos desde um histórico de filósofos gregos como Aristóteles e Platão, como passagens na Declaração Universal Direitos Humanos e na Constituição Brasileira relacionando liberdade como princípio básico da dignidade humana. Isso significa que autonomia tem uma relação com um princípio básico da nossa existência: a dignidade.

Algumas pessoas podem concluir facilmente o seguinte: então temos que dar liberdade total para cada um fazer o que quiser na empresa para que elas se sintam motivadas? Certamente não é nada disso. As pessoas têm noção de isso levaria ao caos, que levaria a improdutividade, que levaria a empresa à falência, que levaria ao fim do seu emprego. 

O significado de autonomia num ambiente onde objetivos específicos precisam ser cumpridos exige muito mais do que simples liberdade de fazer o que quiser. Essa autonomia precisa ser orientada. Os líderes que buscam motivar suas equipes através do sentimento de liberdade precisam capacitar tecnicamente e estrategicamente cada indivíduo. Ou seja dar o conhecimento técnico necessário e a visão estratégica total para que as pessoas possam ganhar confiança e agir de forma autônoma, livre, para serem proativas na direção certa. A capacitação técnica permite usar as ferramentas certas para realizar. A visão estratégica, quando bem incorporada pelas pessoas, dá confiança para saber o que deve ser feito numa tomada de decisão. Assim, elas ganham confiança para julgar o que é certo e o que é errado, bem como o que está contra ou a favor da visão de futuro da empresa. 

Talvez seja essa falta de autonomia que dá ao estagiário de hoje a visão de que ele pode ser gerente amanhã. Porque tanto ele quanto o gerente carecem de liberdade para decidir. Sempre tem um superior na hierarquia que precisa carimbar as decisões. Zero liberdade para decidir o que deve ser feito, para priorizar tarefas, para improvisar quando as coisas dão errado. Enfim, para tomar pequenas decisões do dia a dia. Enfim, você entendeu, né? Significa que ambos se sentem escravos do trabalho. Levantam na segunda-feira sem motivação porque não tem perspectiva de uma vida regida pela sua vontade. Ou seja, eles acordam na segunda-feira sem nenhuma dignidade. Que só é recuperada no happy hour de sexta-feira.

Pessoas livres se sentem motivadas a seguirem quem lhes dá a liberdade. 

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